Del.Art:Como
o teatro surgiu na sua vida?
Franz Keppler: Estava na quinta série
do curso ginasial, em 75. Tinha aulas de português com a Maria
Helena Muniz, irmã do Lauro César Muniz. Ela incentivava
muito o teatro na escola, fazia festivais entre as classes, com prêmios
para melhor montagem, ator, atriz etc. Naquele ano, lembro que ganhei
o prêmio de melhor ator, que foi entregue pelo Lauro. Adorei!
Alguns anos depois, em 78, se não me engano, fui a uma biblioteca
municipal fazer uma pesquisa e lá vi que eles tinham um trabalho
bem bacana de teatro para adolescentes. Comecei a participar desse grupo,
o Tabas, e passei minha adolescência participando de diversos
espetáculos infanto-juvenis. Escola de manhã, teatro à
tarde. Não teve jeito, me apaixonei.
Del.Art:Nunca
ninguém me disse eu te amo faz uma interessante reflexão
sobre o universo corporativo. Como surgiu a idéia do texto?
Trabalhei por quinze anos em uma agência de comunicação
empresarial, convivi com gerentes e diretores de marketing e recursos
humanos de multinacionais dos mais diversos segmentos. Quando decidi
parar com a agência e retornar ao teatro, quis contar um pouco
do que havia presenciado neste universo. Aí surgiu a peça.
Del.Art:Na sua peça (Nunca ninguém me
disse eu te amo), a protagonista deixou de lado a sua vida particular
em busca do seu sucesso profissional e do perfeccionismo na sua função
administrativa. Você acha que vale a pena deixar a vida pessoal
de lado em busca do sonho profissional ou dá para conciliar as
duas coisas?
Eu acredito que a felicidade é uma soma de várias coisas.
Uma pessoa só é feliz se tem família, amigos, paixões
e trabalho. Na minha opinião, não dá pra optar
por uma coisa em detrimento da outra. O grande desafio é saber
conciliar tudo isso !
Del.Art:A ética (ou a
falta dela) nas relações humanas é tratada na peça.
Ética e sucesso empresarial podem caminhar juntos, não?
O que é ser ético para você?
Claro que ética e sucesso empresarial podem caminhar juntos.
Aliás, só acredito no sucesso quando a ética, a
verdade, a transparência e o respeito nas relações
estão presentes. Como dizer que alguém, mesmo bem-sucedido,
obteve sucesso, se pra subir ele se utilizou de meios ilícitos,
puxou o tapete de outras pessoas, corrompeu ou foi corrompido? Não
dá!
Del.Art:Como foi a escolha das
atrizes para os papéis e comente sobre a atuação
da dupla na peça. E a direção?
O Rodolfo, produtor do espetáculo, e a Sílvia Ferreira,
atriz, estavam à procura de um texto e me chamaram para conversar.
A idéia era realizarmos um trabalho juntos. Na época,
estava escrevendo a peça. Eles acompanharam bastante este processo
e quando o texto ficou pronto resolvemos encená-lo. A Silvia
já havia trabalhado com a Laís em outro espetáculo,
fizemos uma leitura e aí definimos o elenco. Um pouco depois,
encontrei o Flávio Faustinoni no teatro. Fazia tempo que não
nos víamos. Ele me convidou pra escrever um texto para um projeto
que ele estava desenvolvendo, escrevi, ele gostou e, logo na seqüência,
o convidamos para dirigir a peça. Costumo dizer: as pessoas chegam
na hora certa - e foi assim com o Flávio e com todos da equipe.
Fiquei muito satisfeito com o resultado final, tanto da direção
como da atuação.
Del.Art:Nunca ninguém
me disse eu te amo foi muito bem recebida pelo público e crítica.
Como foi esse sucesso (era esperado, foi surpresa...)? E como as pessoas
da área empresarial o recebem? Fizeram sessões especiais
para esse público?
Quando acreditamos em um trabalho, sempre esperamos que ele seja bem
recebido. Claro que tem horas que você se sente inseguro, preocupado
com o que as pessoas vão dizer, pensar, enfim... mas sempre apostamos
muito na peça, sabíamos que estávamos realizando
um espetáculo que tinha muito pra dizer, pra provocar... E foi
o que aconteceu.... Ouvimos muitos comentários de pessoas que
se identificaram com as personagens, que se “viram dentro da peça”.
Tivemos a presença de diretores, gerentes, presidentes de multinacionais
que elogiaram a maneira como o tema foi tratado e realizamos algumas
sessões para grupos de funcionários, sempre com uma resposta
muito positiva.
Del.Art:Apesar de em 88 um texto
seu ter sido encenado no TBC, você é um dramaturgo que
está surgindo no cenário teatral paulistano. De 88 a 2005,
quando exercia o jornalismo, qual era a sua ligação com
o teatro? (caso tenha se distanciado, como conseguiu ficar tanto tempo
longe? imagino que teve dúvidas quanto a se dedicar ao teatro
ou não).
Gosto de deixar claro que me dediquei muito mais à comunicação
empresarial. Cheguei a escrever, como frela, para um jornal de arte
do Rio de Janeiro, algumas revistas de interesse geral etc, mas nunca
fui um jornalista de redação. Na agência onde trabalhei
por quinze anos, costumávamos inserir ações artísticas
e lúdicas nos projetos de comunicação interna.
Como exemplo, certa vez, para contar a história da ciência
para funcionários de uma empresa, apresentamos um projeto de
dança-teatro, onde tínhamos coreografias que representavam
as principais teorias da ciência e atores interpretando os principais
cientistas em esquetes que mostravam um pouco de suas vidas. Muito mais
legal do que uma palestra, não é? Com trabalhos como esse,
mantive o contato com atores e com o teatro, sem contar que assistia
a tudo que podia. Mas a agência foi me consumindo de tal forma
que não conseguia me dedicar à dramaturgia como queria.
Foi aí que, em 2006, decidi optar pelo teatro.
Del.Art:Quantos
textos você escreveu? Fale sobre a criação dos mesmos
e como foi vê-los encenados?
O primeiro texto que escrevi foi Egos Com Plexos, montado no TBC em
88. Escrevi e dirigi. Na época, o Alberto Guzik, crítico
do Jornal da Tarde, escreveu que eu era um autor que chamava a atenção,
mas que a direção foi um erro. Nunca mais quis me arriscar
na direção ( risos). Depois, optei pela comunicação
e só voltei a escrever em 2005, e aí surgiu “Anjo
da Guarda”. Mandei o texto pro Claudio Fontana. Ele adorou a peça
e sugeriu uma leitura com ele e o Elias Andreato, que aconteceu no final
daquele ano, no projeto Segundas Intenções. Os comentários
que vieram a seguir sobre o texto me incentivaram a continuar escrevendo.
Na seqüência, escrevi Nunca ninguém me disse eu te
amo. Em 2007, escrevi Soterrados, que deve ser montado ainda no primeiro
semestre deste ano e, a convite do Flávio, escrevi um dos personagens
de um monólogo, ANORMAIS. É um projeto muito interessante:
são cinco personagens de uma mesma família, cada um deles
escrito por um dramaturgo. Ainda em 2007, participei, como dramaturgo
convidado, do Festival de Peças de Um Minuto, promovido pelos
Parlapatões.
Del.Art:O Franz jornalista influencia o dramaturgo
e vice-versa?
Na minha opinião, um jornalista é mais curioso por natureza.
Há uma necessidade em saber mais dos fatos, das pessoas que fizeram
parte desses fatos, quem são, o que pensam, o que fazem. E essa
curiosidade é fundamental para escrever. Creio que dela surjam
as melhores histórias. Neste aspecto, o jornalista influencia
o dramaturgo.
Del.Art:Como você vê a classificação de teatro
comercial (mais voltado ao mercado, ao lucro) e alternativo (pesquisa,
arte sem tanta preocupação com a bilheteria? Na sua opinião
há um abismo entre os dois ou há um certo preconceito
nessas classificações?
É muito complicado você dizer que este ou aquele espetáculo
é comercial, o outro é alternativo... Eu acredito em teatro
com qualidade, seja ele qual for. Mais vale uma comédia com um
texto inteligente do que um trabalho de pesquisa que só quem
pesquisou entende. Por isso não gosto de rotular. Acho isso muito
perigoso e preconceituoso. E acredito que todo espetáculo tem
que se preocupar com a bilheteria sim. Afinal, o ator, diretor, o autor,
têm que viver, pagar contas, comer... São poucos os trabalhos
que conseguem o apoio financeiro do Estado ou patrocínio e com
isso podem se dar ao luxo de não se preocupar se haverá
público ou não. Mas, e se não houver? O objetivo
do teatro foi atingido? O que é o teatro sem público se
não um trabalho feito para alimentar egos?
Del.Art:Anjo da Guarda teve leituras
e está para ser montada. As leituras dramáticas são
o melhor termômetro para o autor sentir o quanto o texto agrada
(ou não) o público?
As leituras são muito importantes. Com elas, identificamos se
a peça funciona ou não, se é necessário
fazer mudanças, se está longa ou no tempo certo, enfim,
vale muito a pena. Sem contar que é uma oportunidade de mostrar
o trabalho para atores, produtores e patrocinadores. Por outro lado,
o público participa cada vez mais, pois, além de ter um
contato com novos textos, tem a oportunidade de debater e trocar idéias
com o autor, o diretor e o elenco.
Del.Art:Te vi várias vezes
nos ensaios e apresentações do Nunca ninguém me
disse eu te amo. Você dá palpites ao diretor, muda o texto?
Eu vou muito às apresentações por estar envolvido
com a produção executiva do espetáculo. Mas não
sou o autor que palpita, que interfere, que não quer mudanças
no texto, nada disso. Eu e o Flávio trocamos algumas idéias
no início do processo, ele sugeriu algumas mudanças para
o texto, fiz as mudanças necessárias e, a partir do momento
que começou o trabalho efetivo com as atrizes, não acompanhei
mais. Só fui ver um novo ensaio quando a peça já
estava levantada. Costumo dizer que um texto é um filho que a
gente gera pra outra pessoa criar. Confiei este filho ao Flávio,
logo, não posso ficar palpitando na criação dele.
As perguntas abaixo eu faço geralmente a todos os entrevistados
para fazer um retrato de como os artistas pensam o teatro.
Del.Art:Qual o seu objetivo como
artista? Qual a importância do teatro na sua vida, na sociedade?
Por ora, é continuar escrevendo textos que permitam uma reflexão
sobre a nossa sociedade atual. E neste objetivo, vejo a importância
do teatro, uma arte que tem a possibilidade de impactar e transformar
as pessoas de alguma forma.
Del.Art:Na sua opinião, como está o teatro hoje? O que
tem chamado a sua atenção na dramaturgia, mas também
em todos os ¨aspectos¨ e ofícios ligado ao fazer teatral?
Mesmo diante de todas as dificuldades de se fazer teatro, estamos em
período extremamente fecundo e promissor. No ano passado, chegamos
a ter mais de 100 espetáculos em cartaz em São Paulo,
o que por si só já é uma vitória. É
muito gratificante ver que hoje temos uma produção teatral
extremamente diversificada, capaz de agradar a todos os tipos de públicos.
Trajetória profissional:
FRANZ KEPPLER
Jornalista de formação, trabalhou na área cultural
(no início da carreira, colaborando com um jornal do Rio de Janeiro,
já extinto, e na assessoria de alguns espetáculos teatrais),
mas a sua maior experiência é no jornalismo empresarial.
O primeiro texto que escreveu foi Egos Com Plexos, montado no TBC em
88, e só voltou a se dedicar à dramaturgia em 2005, com
o texto Anjo da Guarda, que teve uma leitura dramática no projeto
Segundas Intenções, protagonizada por Cláudio Fontana
e Elias Andreato e, mais recentemente, no Projeto Letras em Cena, com
Elias Andreato e André Fusko.
Nunca Ninguém me disse eu te amo, texto escrito em 2006, foi
o seu primeiro texto encenado, depois de 20 anos. A peça, que
está entre as melhores de 2007, revelou um dos talentos da nossa
dramaturgia e teve uma ótima repercussão, com indicação
a prêmios. As atrizes Laís Correa (concorreu ao Prêmio
Qualidade Brasil de Melhor Atriz 2007) e Sílvia Ferreira dão
um show em cena.
A história de Nunca ninguém me disse eu te amo é
inteligente, bem elaborada e merece ser destacada.Uma executiva (Renata
- Laís Correa), que dedicou mais de 25 anos a uma empresa de
sabão em pó, é demitida e estabelece um diálogo
corrosivo com a sua companheira de trabalho, Ana - Sílvia Ferreira,
uma jovem secretária, que aparentemente parece estar comovida
com o ocorrido, mas que no decorrer da trama parece não ser tão
emotiva quanto parecia. A dedicação de Renata, que deixou
até mesmo de ir ao enterro de sua mãe, não foi
levada em conta pelos dirigentes da empresa, que pretendem reestruturar
o quadro de funcionários, hábito comum no ramo empresarial.
A busca do sucesso em detrimento da dedicação à
sua vida pessoal fez com que Renata sentisse a sua demissão como
¨uma punhalada pelas costas¨...
Novas montagens (Soterrados e Anjo da Guarda) acontecerão em
2008. Além disso, o promissor dramaturgo pretende escrever outros
textos para teatro e estudar muito, principalmente, cinema.
O bate-papo foi formulado com o objetivo de revelar aos leitores um
pouco da trajetória e pensamento do artista, que resolveu se
dedicar totalmente ao teatro e conquistou espaço no cenário
teatral paulistano.
Para saber mais detalhes sobre a montagem: http://www.nuncaninguemmedisseeuteamo.com.br